Hilton Luzz
em (des)construção desde 1989
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Em alguns momentos eu me sinto como se estivesse de  frente para uma livraria observando atentamente cada título e criando teorias sobre qual conteúdo justificaria o nome do livro dado pelo autor ou autora e se eu poderia aplicar aquilo que eu entendo como o que deve estar contido no livro em minha vida. É muito louco, eu sei. Indiretamente escuto isso às vezes do Dr. Samuel Cupcake, sobre como poderia me sentir melhor se olhasse para dentro e resgatasse quem eu verdadeiramente sou. Ponto. É como me chamar de louco por não me entender.  Suas frases de efeito, desde os meus doze anos, se encerram em tentativas gastas de me trazer à lucidez a o-b-r-i-g-a-t-o-r-i-e-d-a-d-e de assumir uma posição.

Diga-se de passagem que tudo isso é muito chato, você não pode se sentir isolado do universo, precisa, aliás´precisa não, D-E-V-E, isso mesmo, com letras garrafais, fazer parte de algo maior que você. Ok, entendo e desde que apareceu uma caneca branca de porcelana com desenho de um cupcake na cor de um arco-íris na mesa do Dr Samuel (meu psicólogo) passei a desconfiar de sua credibilidade, afinal, não é assim que vemos nos filmes, sempre tem uma pessoa bem vestida, normalmente com um óculos e usando retórica tentando fazer com que as pessoas respondam as perguntas que elas mesmas fizeram, ah, e não tem caneca com desenho de arco-íris. HAHA. Quando eu contei para a minha mãe ela riu e disse que eu tinha que cuidar da minha vida e ela não pagava caro na consulta para que eu reparasse nos detalhes que não importam.

Aprendi a escrever algumas coisas que importam. Tudo o que realmente faz sentido para mim, uso a mão como instrumento para canalizar e expressar no papel, e existem coisas que as palavras são incapazes de descrever. PELOAMORDEDEUS, às vezes cansa porque a mente cansa, a ansiedade toma conta e o universo não parece conspirar a meu favor. Ou talvez a favor de ninguém? Juro que eu odeio ser negativo, e todos que me conhecem sabem que sou a pessoa mais goodvibe do planeta, mas tem sido cada vez mais difícil esse processo de fazer auto análise e me expor para mim mesmo. 

Ah, bem, hoje consegui ouvir a buzina do carro da minha mãe que estaciona toda quarta-feira de frente à loja de produtos naturais que fica umas duas casas à frente do consultório. Não, não seria impossível ouví-la de tão longe!

 
- Eduardo, nos vemos na próxima quarta? - óbvio que minha vontade era dizer não, mas em meu olhar e meio sorriso ele já poderia perceber isto.

- Acredito que sim, se estivermos vivos até lá. Até quarta! - ele esticou a mão e deu um tapinha em meu ombro. OUSADO. Pensei. Vontade de dar um chute nesse cara! E me retirei com classe. Mas antes… - Eu poderia levar aquela caneca como souvenir e você nem sentiria falta dela! - falei, com o olhar sobre o ombro já próximo à porta.

- Até quarta, Eduardo. 

O trajeto para casa era quase sempre de um silêncio fúnebre. Eu sei que minha mãe adoraria que eu relatasse cada segundo das conversas que eu tinha com o meu psicólogo, mas é muito íntimo. E ela não entenderia, de qualquer forma, só responderia com um uhum, continue. Prefiro manter tudo do jeito que está.
 

***
 
Um espelho. 
E como se nada tivesse som, me vejo absorto entre a imagem refletida e meu próprio corpo. Um frio na barriga, as mãos frias, o corpo pesado, sinceramente, não estou entendendo. Vagarosamente me volto ao redor e percebo não ser um lugar comum. Onde estou? Deve ser só um sonho, Eduardo, relaxa, relaxa! Tento manter a calma. O céu é estranhamente luminoso e as estrelas parecem mais próximas que o normal em um dia em que as nuvens estão bem distantes. Está uma noite agradável e não faz frio, mas se não faz frio por que meu corpo está gelado? Quando olho para baixo vejo meus pés descalços pisando sobre uma grama verde rodeada de pequenas flores coloridas, sinto o cheiro gostoso de mato, me sinto um pouco aliviado e volto outra vez meu olhar ao espelho à minha frente, um pouco maior que eu, deve ter um metro e oitenta de altura, sua borda é dourada e grossa com um pequeno desenho do olho de hórus nas extremidades. 

Nu, assim me noto. ohmygod!
E tomo um choque, é claro. Está sendo tudo muito real para ser apenas um sonho. Ergo minha mão direita e encosto sobre o vidro e sinto o frio percorrer todo o meu corpo. É real, mas onde estou? 

Fecho os olhos por cinco segundos, inspiro profundamente o ar e expiro. Abro os olhos e percorro toda a extensão do meu corpo nu refletido naquele imenso espelho de ouro. Sinto coçar o meu pescoço, bem próximo à clavícula, passo a mão por cima da pele e noto que há algo de errado, me aproximo do espelho. MEUDEUSDOCÉU, que porra é essa? Uma pequena rosa branca nasceu no meu pescoço. Só pode ser um sonho. Só pode ser um sonho. Belisquei o meu braço e arranquei a rosa. Só pode ser um sonho. Acorda! Acorda Eduardo! Respiro fundo, fecho os olhos. Um, dois, três, quatro - abro os olhos devagar - cinco...QUEMERDAÉESSA? Outra rosa branca começa a sair do meu pescoço. Sinto vontade de vomitar e não consigo entender o que pode ter acontecido e como vim parar aqui, como pode ter sido isso? Caio sobre a grama fria; AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, grito. O que está acontecendo? O que está acontecendo? Passo as mãos sobre a terra, as levo até o rosto e as esfrego sobre as bochechas. Novamente me vejo refletido, sentado ao chão, nu, com as lágrimas descendo vagarosamente sobre o meu rosto, encontrando os meus lábios, e questiono em voz alta: onde estou?

Calma. Falo. Que dia é hoje? Hmmm, dezessete anos...dezessete anos, é o meu aniversário. Qual foi o último lugar em que estive? Não consigo me lembrar...talvez comemorando com o namorado?  

Ergo meu corpo e fico de pé em frente ao espelho, com um olhar de espanto que me cabe neste momento, afinal, já não sei mais de nada. Mal me recordo das próprias memórias, é como se estivesse sofrido um apagão mental. Mas não, ainda sei que hoje é o dia do meu aniversário de dezoito anos, mas qual importância isso tem agora? A única imagem que vejo é de mim e nu - diga-se de passagem, com uma rosa branca crescendo em meu pescoço e uma dor pulsante em meu estômago. Este sou eu? Pálido, o tom amarronzado da minha pele parece amarelado, meu corpo magro e definido parece sem vida, nem mesmo consigo identificar a tonalidade dos meus olhos que um dia foram de um castanho esverdeado. 

É noite. A lua...onde está a lua? Olho ao redor e no céu apenas estrelas que parecem enormes e vagalumes passeando pela escuridão, há uma cor de tom esverdeado se movendo lentamente sobre o céu ao redor de toda a extensão de onde estou. UAU é muito lindo. Devo comentar sobre isto com o Dr Samuel ou ele acharia que estou ficando louco? 

Passo as duas mãos sobre a barriga e percebo que, ao olhar para baixo, uma rosa está crescendo também nesta região. MEUDEUS o que é isso? Um milagre? Virei um jardim, agora? No mesmo instante em que a retiro, outra começa a surgir no mesmo lugar, mas noto que em minha pele há uma camada aparentemente costurada exatamente neste local em que nasceu esta rosa. Se eu disser isto ao Dr. Samuel c-o-m-c-e-r-t-e-z-a ele dirá que estou louco.

Não consigo controlar o que estou sentindo, e é uma mistura de raiva, com medo, tristeza, angústia, aflição, e tudo o que eu gostaria era de estar em casa, tomando café da manhã com os meus pais e a Dolly, minha cachorra da raça lulu da pomerania.
O silêncio é quebrado quando ouço uma música baixinho. Tento me concentrar para identificar de onde vem o som. AHHH, uma esperança de sair daqui. Olho ao redor e não vejo nada, tirando o fato de, bem distante uma luz iluminar alguma coisa que parece me observar desde que dei por mim neste lugar. Medo. A mesma luz parece me iluminar. Medo. O som da música continua, me volto para o espelho e algo estranho acontece lá dentro. As imagens que refletem a mim e ao mundo paralelo em que estou começam a se mover e a girar. O som começa a ficar um pouco mais audível. meudeusdocéu… Sou eu?
Hilton Luzz
Enviado por Hilton Luzz em 13/03/2021
Alterado em 13/03/2021
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